‘Tudo que me fazia mal, eu passei para a tela’: ex-interno de manicômio no Rio vira artista que já expôs na Itália
- 18/05/2026

O artista plástico Edson Antunes Divulgação Edson Antunes, de 63 anos, testemunhou momentos distintos da saúde mental no país. Ele viveu o modelo manicomial e acompanhou a reforma psiquiátrica baseada no cuidado em liberdade. Internado com sofrimento psíquico ainda na infância, Edson encontrou na arte uma forma de reconstruir a própria trajetória. Hoje, ele mantém um ateliê no Instituto Municipal Nise da Silveira, no Engenho de Dentro, na Zona Norte do Rio de Janeiro, e já exibiu obras no Brasil e no exterior. Nesta segunda-feira (18), é celebrado o Dia Nacional da Luta Antimanicomial — e um festival ao longo da semana no Nise vai discutir a importância do cuidado em liberdade na saúde mental. 🔎O Movimento Antimanicomial tem o dia 18 de maio como data de comemoração no calendário nacional brasileiro. Esta data remete ao Encontro dos Trabalhadores da Saúde Mental, ocorrido em 1987 em Bauru (SP). UPA, AMA OU UBS? Onde procurar atendimento médico? Hoje casado e pai de 2 filhos, Edson diz que encontrou no instituto um espaço de acolhimento e pertencimento. “Tudo que me fazia mal, eu passei para a tela”, destacou. “Quando você enxerga aquilo que te incomoda, encontra um jeito de batalhar contra isso. A arteterapia não cura, mas dá direção. Ela ensina a sobreviver ao que surge dentro da gente”, prosseguiu. As obras de Edson já foram exibidas no Paço Imperial, no Centro do Rio, e na Escola de Belas Artes de Verona, na Itália, além de mostras em instituições culturais brasileiras. “Minhas verdadeiras obras de arte hoje estão em casa: minha esposa e meus filhos. Eles me ensinam todo dia o que é amor. Mas hoje, aqui no Nise da Silveira, encontrei uma família, onde sou tratado como ser humano”, afirmou. O contato dele com a pintura aconteceu após incentivo de profissionais do Caps Raul Seixas, onde começou a expressar emoções no papel. A arte passou a integrar o tratamento e se tornou também uma ferramenta de trabalho e convivência. Hoje, Edson mantém um ateliê no Espaço Travessia, ligado ao Núcleo de Cultura, Ciência e Saúde do Instituto Nise da Silveira. O projeto promove exposições de artistas periféricos e oferece oficinas abertas ao público. Além do trabalho no ateliê, Edson participa das atividades terapêuticas do Museu de Imagens do Inconsciente, produzindo telas e peças em cerâmica. Segundo a instituição, as iniciativas fazem parte de uma proposta de cuidado humanizado em saúde mental, baseada em arte, cultura e inclusão social. Inspirado pela própria trajetória, o artista também desenvolve atividades em escolas, projetos sociais e instituições culturais, usando o desenho como forma de escuta e expressão emocional. Edson mantém um ateliê no Nise da Silveira Divulgação Do sofrimento ao pertencimento Erika Pontes, diretora do Instituto Municipal Nise da Silveira, lembra que a unidade já foi “um local de muito sofrimento”. “Várias pessoas foram internadas aqui ainda na infância. Os efeitos disso são inúmeros.” “Revisitar essa história é fundamental para que possamos refletir sobre outras possibilidades de cuidado, baseadas no respeito, na dignidade, na cidadania e no cuidado em liberdade. Um cuidado que reconheça a individualidade, a história e a humanidade de cada sujeito”, afirmou. O Nise também abriga o Memorial da Loucura, espaço aberto ao público que reúne documentos, livros, prontuários, móveis e obras artísticas relacionados à história da psiquiatria no Brasil. O acervo apresenta desde o período marcado pelos manicômios até o processo de reforma psiquiátrica e desinstitucionalização dos pacientes. O espaço funciona nas instalações originais do antigo manicômio e traz objetos, relatos e experiências imersivas sobre a transformação do modelo de atendimento em saúde mental. Também integram as atividades do Nise o bloco Loucura Suburbana, oficinas culturais e iniciativas de geração de renda, como o Bistrô QuiDeliche e uma loja com produtos produzidos por usuários da rede de saúde mental. A visitação é aberta ao público de terça a sábado, das 9h às 16h, e às segundas-feiras, das 13h às 16h. Memorial da Loucura, no Instituto Municipal Nise da Silveira Divulgação Festival marca Dia da Luta Antimanicomial Para marcar o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, celebrado sempre no 18 de maio, o Instituto Municipal Nise da Silveira realiza entre terça (19) e segunda-feira da semana que vem (25) a 4ª edição do Festival Nós na Luta. A programação terá oficinas, rodas de conversa, apresentações culturais e debates sobre a história da saúde mental no Brasil e os 25 anos da Lei 10.216/2001, considerada um marco da reforma psiquiátrica brasileira. A entrada é gratuita, é só chegar na Rua Ramiro Magalhães 521. Programação Terça, 19 9h30: Aula Magna com Paulo Amarante no Auditório Cetape 14h: Visita Guiada no Centro de Estudos Quarta, 20 9h: Contação de histórias no Memorial da Loucura 9h30: Planetário móvel e lançamento de foguetes no Ginásio do Polo Esportivo 10h: Biodanza no Bosque Dona Ivone Lara 13h: “Ambulatório em: Retratos - Contando Nossas Histórias” no Espaço Travessia 14h: Teatro “Os Inumeráveis: O amor maior ou poderia dizer a história Do Mar Sem Ondas” no Espaço Travessia 14h20: Ballet Osun no Espaço Travessia 15h: Roda de conversa com os artistas no Espaço Travessia Quinta, 21 9h às 18h: “Um dia de Poesia: 10 anos de Travessia”. Programação com shows, oficinas, teatro, música, cordel, lançamento de livros, sarau e outras atividades em comemoração aos 10 anos do Espaço Travessia. Sexta, 22 9h: Mesa de debate “Lei 10.216/2001: 25 anos de uma lei viva” no Auditório Cetape 14h: Encontro de Rodas de Samba da Saúde Mental no Memorial da Loucura Segunda, 25 9h às 17h: Abertura do VI Campeonato de Futebol da RAPS Carioca na Vila Olímpica do Encantado (Rua Bento Gonçalves 457a)
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