Em áudios, deputado Thiago Rangel dá ordens na Educação e negocia cargos para traficante, diz PF
- 18/05/2026

Em áudios, deputado Thiago Rangel dá ordens na Educação e negocia cargos para traficante, diz PF Áudios e mensagens obtidos pela Polícia Federal na Operação Unha e Carne mostram o deputado estadual Thiago Rangel (Avante) atuando diretamente sobre cargos estratégicos da Secretaria Estadual de Educação e negociando vagas na área para pessoas ligadas ao traficante Arídio Machado da Silva Júnior, o “Júnior do Beco”, segundo a investigação. (Ouça acima os áudios que o RJ1 teve acesso). Rangel está preso há 13 dias, acusado de chefiar um esquema criminoso de fraudes e desvios de recursos da educação. Os diálogos fazem parte do inquérito que levou à prisão preventiva do parlamentar, decretada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no fim de abril. A PF suspeita que Thiago Rangel chefiava um esquema de fraudes em contratos de obras e serviços da rede estadual de ensino, além de lavagem de dinheiro envolvendo empresas e uma rede de postos de combustíveis. Em um dos áudios atribuídos ao deputado, enviado à então diretora regional de Educação do Noroeste Fluminense, Júcia Gomes de Souza Figueiredo, Thiago ordena o que deve ser feito na estrutura da educação. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça “Júcia, continua aí do jeito que você tem que estar. Tudo que acontecer dentro da regional eu quero saber. Eu não tenho que dar satisfação a ninguém. O deputado sou eu. A indicação é minha e quem manda sou eu”. Segundo a Polícia Federal, a mensagem foi enviada em agosto de 2024 e extraída do celular de Júcia, que também foi presa na operação. O deputado Thiago Rangel foi preso pela PF Divulgação Na época, ela comandava a Regional Noroeste da Seeduc, responsável por 57 escolas estaduais distribuídas em 13 cidades do Norte e Noroeste Fluminense, com mais de 3.200 servidores. PF vê controle político De acordo com a investigação, a conversa foi encontrada no trecho do inquérito que apura possíveis fraudes em contratos de obras em escolas estaduais. Para os investigadores, o áudio demonstra que Júcia teria sido indicada diretamente por Thiago Rangel e mantinha relação de subordinação política ao deputado dentro da estrutura da Secretaria de Educação. A PF descreve Júcia como uma espécie de “longa manus” do parlamentar — expressão usada para indicar alguém que atuaria como extensão operacional do deputado dentro do órgão público. Os investigadores afirmam ainda que ela exercia função “vital” para o funcionamento do esquema criminoso, justamente por coordenar administrativamente dezenas de escolas estaduais. Na decisão que autorizou a prisão preventiva do deputado, Alexandre de Moraes reproduz os argumentos da Polícia Federal e afirma que os elementos apontam para a “instrumentalização” da Secretaria Estadual de Educação em benefício do grupo investigado. Transferência suspeita Outro diálogo destacado pela PF ocorreu em outubro de 2024. Segundo o relatório, Júcia encaminhou a Thiago Rangel um comprovante de transferência de R$ 100 mil da empresa VAR Construtora para a empresa E. H. Almeida de Souza Casas de Festas. Logo depois, ela reenviou mensagens afirmando: “Já mandei 100”; “amanhã vai o resto”. O traficante Arídio Machado da Silva Júnior, o Júnior do Beco Reprodução/TV Globo Para a Polícia Federal, a movimentação reforça suspeitas de lavagem de dinheiro e circulação de recursos desviados de contratos públicos. A investigação aponta que a VAR Construtora aparece ligada a obras em escolas estaduais e não possuía funcionários registrados na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), o que, segundo a PF, eleva o risco de fraude. Os investigadores afirmam ainda que a empresa destinatária dos valores seria usada para movimentação financeira do grupo investigado. Áudio liga deputado a criminoso Outro conjunto de mensagens analisado pela PF tenta demonstrar a relação de Thiago Rangel com Arídio Machado da Silva Júnior, o “Júnior do Beco”, apontado pela própria corporação como traficante de “alta periculosidade”, com antecedentes por homicídios e tráfico de drogas. As conversas foram extraídas do celular de Fábio Pourbaix Azevedo, apontado como braço direito de Thiago Rangel e também preso na operação. Segundo a investigação, Thiago teria reservado vagas de “auxiliar de serviços gerais” na área da Educação para indicações feitas por “Júnior do Beco”. A PF afirma que Fábio Pourbaix pediu a Thiago o contato do traficante para saber quem seriam os indicados para os cargos. Em seguida, o deputado envia um telefone salvo como “Junior Beco”. De acordo com os investigadores, Thiago afirma que possuía oito vagas disponíveis na Educação e que uma delas deveria ser destinada a um indicado do traficante. Em um dos áudios divulgados pela PF, uma mulher identificada como Gleice Maria Batista da Silva cobra a nomeação prometida: “Thiago Rangel, aqui é Gleice, irmã de Juninho do Beco. Eu fui fazer uma entrevista em agosto ou setembro e até hoje não me deram uma posição. Meu irmão pediu para eu te ligar para ver o que estava acontecendo.” A PF afirma que posteriormente cruzou dados e identificou Gleice como irmã de “Júnior do Beco”. Distribuição de cargos As mensagens analisadas pela investigação também mostram orientações sobre a organização dos nomes indicados para os cargos. Computador de chefe de gabinete de Thiago Rangel continua uma planilha com a distribuição de cargos Reprodução/TV Globo Em outro áudio, atribuído a Thiago Rangel, o deputado orienta: “Você faz dois bloquinhos, prende um papelzinho escrito Junior do Beco e bota um clip juntando os dois.” 🟩O g1 Rio está no GloboPop, o novo aplicativo de vídeos curtos verticais da Globo, disponível gratuitamente no seu celular. Lá no app, você pode seguir o palco do g1 Rio para não perder nenhum detalhe. Baixe o GloboPop. Segundo a Polícia Federal, os diálogos indicam: distribuição política de cargos públicos; uso da estrutura da Educação para atender interesses pessoais e alianças criminosas; proximidade entre o parlamentar e pessoas ligadas ao tráfico. Os investigadores afirmam ainda que as conversas foram incluídas no capítulo “Observações Finais” da Operação Postos de Midas justamente para demonstrar possíveis conexões entre o deputado e crimes violentos. Na decisão do STF, Alexandre de Moraes utiliza esses diálogos para reforçar o argumento de risco à ordem pública e de continuidade das atividades criminosas. Influência em órgãos públicos A investigação também revelou uma planilha encontrada no computador de Rui Bulhões, ex-chefe de gabinete do então presidente da Alerj Rodrigo Bacellar. O documento listava deputados estaduais, os órgãos sob influência política de cada um e novos cargos ou estruturas desejadas. Na planilha, Thiago Rangel aparece com influência sobre: Detran de Campos; IPEM de Campos; 15 vagas na Alerj. Também constam pedidos relacionados a: Detro; Fundação Leão XIII; Fundação para a Infância e Adolescência (FIA); vagas na Secretaria Estadual de Trabalho. Segundo a PF, Thiago Rangel teria utilizado sua influência sobre o IPEM em benefício da própria rede de postos de combustíveis. A investigação afirma ainda que foram encontrados indícios de corrupção ativa e passiva envolvendo fiscais do órgão. A Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) disse que Thiago Rangel foi afastado por ordem o STF. Há uma semana, a Alerj exonerou os 40 assessores e a chefe de gabinete. Na capa do Diário Oficial, Rangel ainda aparece como líder do partido Avante na Alerj. Na última semana, mesmo atrás das grades, ganhou presença em uma das sessões. O que dizem os citados A defesa de Thiago Rangel reafirmou, por meio de nota, a inocência do parlamentar. Disse que as mensagens foram tiradas de contexto e que ele não faz parte de organização criminosa, nem manteve contato ilícito com membros de facção. A reportagem também procurou as defesas de Fábio Poubaix e Jucia Gomes, mas não teve retorno até o fechamento desta edição. A Secretaria Estadual de Educação informou que está realizando uma revisão administrativa de todos os procedimentos relacionados às obras de manutenção nas escolas da rede. A Alerj se pronunciou com a seguinte nota: O deputado permanece afastado enquanto estiver em vigor a cautelar referendada pela Primeira Turma do STF. "A Mesa Diretora da Alerj se reuniu, na semana passada, e deliberou sobre o afastamento do parlamentar e destituição de seu gabinete enquanto perdurar a decisão judicial. Como não há previsão na legislação para a convocação do suplente nesse tipo de situação, a Alerj está estudando as formas para efetivar a convocação cautelar, de modo a restituir o quórum da Casa. O deputado já consta como afastado nos sistemas da Casa. Eventuais menções ao parlamentar em materiais oficiais publicados após seu afastamento tratam-se de erro material."
FONTE: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/05/18/audios-thiago-rangel-investigacao.ghtml
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